Primeiro foi o chip; depois seguiu-se a memória; e agora é a vez da bateria de papel - no Centro de Investigação dos Materiais da Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa (Cenimat) cada ano que passa há um novo feito a registar no desenvolvimento da eletrónica que não usa silício.
Com o desenvolvimento da bateria de papel, os investigadores da Costa da Caparica prometem encerrar um ciclo e abrir outro de seguida: "Queremos criar dispositivos eletrónicos em papel. A única condição é que consumam pouca energia, porque o papel não dissipa calor... mas no limite uma pessoa pode fazer um telemóvel em casa com uma impressora de jato de tinta. Ou criar uma embalagem que indica a hora de tomar um remédio", projeta Rodrigo Martins, diretor do Cenimat.No Cenimat, já é possível ver em funcionamento o primeiro resultado desta combinação de inovações de papel: hoje, os investigadores da Costa da Caparica conseguem fornecer energia a um chip de papel a partir de uma bateria que também tem o papel por suporte e apresenta tensões elétricas de três volts.
A equipa do Cenimat sabe que não está só na corrida aos materiais alternativos ao silício, mas promete não facilitar: já há laboratórios estrangeiros que produzem baterias de papel com um miliampere; o Cenimat fixou como meta o desenvolvimento de um protótipo de bateria de papel de 20 miliamperes durante os próximos seis meses. Sobre a mesa, está também a criação de baterias que são simultaneamente ecrãs."Para já, queremos criar um ecrã muito simples, que se limita a apagar e a mostrar uma imagem. Nesta investigação, uma coisa puxa a outra. E hoje já podemos combinar memórias, transístores, ecrã e baterias de papel. Também temos pessoal especializado que é capaz de desenvolver várias soluções a partir destes novos componentes", explica Isabel Ferreira, subdiretora do Cenimat.
Ecodescartáveis
O protótipo de bateria de papel corresponde na plenitude às tendências que dominam a atualidade: a nova unidade energética é descartável, flexível, reciclável e barata, e dispensa a rede elétrica ou os combustíveis fósseis, porque apenas necessita do vapor de água que se encontra na atmosfera para produzir energia. A estas características junta-se a possibilidade de aumentar a tensão ou a corrente com o recurso a diferentes tipologias de papel ou materiais que atuam como ânodos ou cátodos. O que abre caminho ao desenvolvimento de unidades energéticas para diferentes dispositivos, aplicações ou cenários.
As novas baterias têm por princípio o aproveitamento das propriedades do papel - em especial dos iões que aí "vivem" e que atuam como transportadores de energia à medida que se deslocam entre o ânodo e o cátodo. Essa deslocação só é possível devido a dois fatores: a existência de vapor de água para transportar os iões e ainda a porosidade do papel que permite a passagem do vapor de água de um ponto para o outro.
Além das baterias produzidas com o papel convencional, o Cenimat criou biobaterrias que recorrem a fibras sintéticas. Com as biobaterias, os responsáveis do Cenimat acreditam poder desenvolver pele artificial, que poderia atuar em simultâneo como ecrã. O que pode abrir caminho ao desenvolvimento a pensos que mudam de cor sempre que estão em contacto com secreções corporais, ou relógios e telemóveis que estão incorporados na pele. Além das aplicações mais futuristas, as biobaterias podem ser de extrema utilidade para fornecer energia a pacemakers, bastando para isso o contacto com os fluidos internos do corpo humano.
Negócio garantido
Os dispositivos eletrónicos desenvolvidos pelo Cenimat já despertaram o interesse aquém e além fronteiras.
Recentemente, o laboratório português anunciou um acordo com a empresa brasileira Suzano, que prevê o desenvolvimento de um papel que pode ser usado em dispositivos eletrónicos.
A este acordo juntou-se outro com a Acreo que tem em vista o inclusão de sistemas eletrónicos em papel.Até ao momento, apenas uma empresa portuguesa contactou os responsáveis do Cenimat, com o objetivo de analisar uma possível parceria.
Rodrigo Martins não tem dúvidas de que vem aí um nova família de dispositivos eletrónicos: "Dizia-se que o ePaper ia matar o papel, mas é o papel eletrónico que vai fazer renascer o papel como produto ancestral".
Links para o artigo:
A energia do papel
Como funciona a bateria de papel