Em dois anos, o segmento dos smartphones entrou em euforia. E por muito que custe admitir a algumas marcas, essa "revolução" tem uma data simbólica similar à das revoluções políticas: 9 de Janeiro de 2007, o dia em que Steve Jobs mostrou ao mundo o primeiro iPhone da Apple.
Nada voltou a ser o mesmo desde essa a data: de súbito multiplicaram-se os modelos e as marcas que ofereciam ecrãs tácteis, lojas de música e aplicações que copiam o iTunes e a App Store. A Apple não tardou a colher frutos da ousadia: mais de 26 milhões de iPhones foram vendidos no mundo em 2008 (estima-se que terão sido comercializados no mesmo ano 22 milhões de máquinas com Windows Mobile).
Depois da Apple, outros intervenientes entraram no promissor segmento, que em tempos foi largamente dominado pela Nokia, tendo apenas a concorrência de dispositivos que corriam Windows e um reduto de fãs indefectíveis dos Blackberry.
Hoje, a Nokia ainda lidera destacada, mas nem os gestores da marca escondem a perplexidade que se gera, sempre que a concorrência anuncia uma nova máquina para o segmento dos smartphones. Até porque a concorrência passou a contar com o ambiente Android, cujo lançamento em larga escala ainda está ser preparado pela Google, e também com marcas asiáticas como Samsung, LG, HTC e até ZTE, que sempre se caracterizaram por serem agnósticas quanto ao sistema operativo, mas têm políticas de preços e parcerias com os operadores tão agressivas que tornam imprevisíveis os efeitos que podem ter para o império liderado pelo duo Nokia/Symbian.
Os quatros magníficos
Eduardo Carqueja, fundador da Ndrive, não tem dúvidas: "Vamos assistir a uma guerra infernal, que é boa para os consumidores, mas cujo desfecho não consigo prever. Apenas posso dizer que o futuro vai ser decidido por quatro companhias: Nokia, Apple, Microsoft e Google."
A softwarehouse portuense tem fornecido aplicações de localização para as maiores famílias de smartphones, mas Eduardo Carqueja acredita que, em breve, o mercado vai acabar reduzido a três grandes ambientes.
Qual a grande marca que vai sucumbir? Carqueja prefere não fazer apostas - mais não seja porque todas "as quatro grandes" têm razões estratégicas para lutar pelo segmento até ao último cêntimo.
"No próximo ano, vão vender-se mais smartphones do que portáteis. Sendo que a fronteira entre os dois segmentos é cada vez mais ténue. Daí não ser inocente a estreia da Nokia nos portáteis e da Apple nos smartphones", acrescenta Eduardo Carqueja.
Não restam dúvidas, a Microsoft, se quiser manter a hegemonia quase incontestada nos sistemas operativos dos PC, vai ter de marcar uma posição nos smartphones.
Em contrapartida, a Nokia não se pode dar ao luxo de ver o Symbian deixar de ser o sistema operativo (SO) mais corrente, porque o controlo do ambiente usado pelas máquinas também representa o controlo da experiência do utilizador, como provou a Apple ao ditar as novas regras do segmento, que permitiram retirar aos operadores as receitas de vendas de aplicações para os terminais.
Resta saber o que fará o Google com o Android: depois do furor típico dos lançamento, a plataforma partiu à conquista do mercado com valores ainda longe dos alcançados pelos três maiores sistemas operativos, mas a verdade é que ainda não começou a capitalizar com a lógica do código aberto e o futuro lançamento de um SO para portáteis.
Com a aposta no código aberto que fez a história do Linux, o líder dos motores busca pretende potenciar o aparecimento de uma comunidade de programação que permita criar uma "bolha tecnológica" e comercial em torno de um sistema que é gratuito. Mas não é líquido que as boas intenções cheguem para fazer um produto comercialmente arrebatador.
"O curioso é que os terminais com Android e outros sistemas operativos de código aberto costumam ser mais caros do que os que têm Windows Mobile", atenta Francisco Ramos Chaves, responsável pela área de negócio de mobilidade na Microsoft Portugal.
Preços mais baixos
Em tempos, o preço foi um factor diferenciador de smartphones e comuns telemóveis.
Só que as previsões apontam para que, dentro de dois anos ou mesmo antes, os smartphones sejam responsáveis por um terço das vendas de terminais no País, o que leva a acreditar numa descida de preços provocada pela economia de escala. E mais: enquanto os maiores SO se digladiam de forma encarniçada, os operadores móveis avançaram por conta própria, com o desenvolvimento de terminais em parceria com marcas quem nem sempre estão no top 5.
Foi assim que surgiu o Bluebelt, da TMN. Produzido em parceria com a ZTE, o modelo de estreia da operadora portuguesa mostrou que é possível criar um smartphone para as massas, com uma operacionalidade que nada fica a dever às grandes marcas e um preço acessível.
Os volumes de vendas dos primeiros smartphones da TMN ainda são desconhecidos, mas não é de espantar que as estimativas do terceiro trimestre confirmem que o Bluebelt já tem lugar assegurado entre os lugares cimeiros do ranking. Com as previsões de vendas de smartphones a dispararem (provavelmente a maioria dos telemóveis do futuro será smartphone...) tudo leva a crer que as maiores marcas não deverão tardar a reagir - o que faz com que o preço deixe de ser um factor tão determinante na decisão de compra.
"O telemóvel é uma coisa muito emotiva. O mesmo terminal pode ser adorado por umas pessoas e detestado por outras", explica Francisco Ramos Chaves.
Com este panorama, só a diferenciação tecnológica pode ditar o próximo vencedor. Em paralelo, algumas barreiras terão de ser quebradas, como a crónica escassez de autonomia das baterias destes terminais que já servem para enviar relatórios, actualizar bases de dados, ver televisão em directo, ou jogar títulos que, há bem pouco tempo, eram exclusivos de consolas.
"Dantes dizia-se que a falta de autonomia era um problema do Windows Mobile, mas agora vê-se que todos os concorrentes têm o mesmo problema. O ideal é que uma bateria dure quarto ou cinco dias em uso regular. É um problema que pode ser resolvido caso aumente a pressão sobre os fabricantes de baterias", acrescenta Francisco Ramos Chaves.
Uma coisa é certa: os smartphones são o must do momento, mas nem todas as marcas estão a capitalizar com eles da mesma forma, como sublinha Eduardo Carqueja: "É à Apple que está a correr melhor a vida. É mesmo possível que seja a única que está a fazer rios de dinheiro. A Google ainda está em fase de investimentos para descobrir como ganhar dinheiro com publicidade, e é provável que a Nokia e a Microsoft estejam a perder dinheiro."
Vendas não páram
SEGUNDO a consultora IDC, terão sido vendidos mais de 275 mil smartphones em Portugal, durante o primeiro semestre de 2009. Até ao final do ano, a mesma consultora estima que mais de 600 mil smartphones sejam vendidos no país.
A Nokia liderou com 62% das vendas de smartphones durante o segundo trimestre de 2009. Esta quota de mercado corresponde à "fatia de leão" das vendas dos smartphones com Symbian instalado, até porque estima-se que a maior parte das vendas da Samsung, segundo lugar do ranking com 12,5%, tenham o Windows Mobile.
A Apple, com 11,7%, a HTC, com 8,4%, e a RIM, com 4,3% ocupam os restantes lugares que compõem o top 5 das vendas de smartphones em Portugal. "Há uma certa tendência para a Nokia e o Symbian perderem quota. Em contrapartida, a Apple e a Microsoft deverão ganhar dimensão e potenciar o crescimento do mercado, o que significa que a Nokia tem um grande desafio pela frente. A presença do Android ainda é reduzida em Portugal", analisa Gabriel Coimbra, director de pesquisas e consultoria da IDC.
Independentemente das quotas de mercado das marcas, as vendas não deverão parar. A IDC estima que, em 2010, os smartphones correspondam a 20% dos terminais vendidos, e que em 2011, já se aproximem de um terço dos terminais comercializados. "A médio prazo, a maioria dos consumidores vai poder pagar por uma máquina com as funcionalidades que hoje são de um smartphone. Há um novo mercado de aplicações, conteúdos e lojas para smartphones que já representa muitos milhões. É uma grande oportunidade para as empresas nacionais que podem aproveitar o facto de terem nascido num mercado desenvolvido para se internacionalizarem", prevê Gabriel Coimbra.
Dentro de dois anos, os smartphones vão representar um terço das vendas de terminais móveis em Portugal.
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